Lá se vai…

Para essa escrita precisei me aquietar, pois notícias de perdas merecem a devida reflexão e organização de emoções e sentimentos, ainda mais em tempos turbulentos como este que estamos vivendo.

Quanto mais vivemos e mais aprendemos, mais vamos compreendendo como a vida é fluida e um sopro, hoje aqui, amanhã, não sei. Hoje bem, amanhã, quem sabe. E essa nossa incerteza de cada dia, quando muito pensada e olhada de frente, pode ser fator de desespero para muitos, talvez por isso a negação constante da morte.

O fato é que pensar na inconstância pode sim ter seu lado bom, sua dose de adaptação à uma realidade inexorável, que chegará para todos. Vamos morrer, ponto, sem vírgula! A questão é quando e como, e o mais importante, qual será nosso legado antes que isso ocorra? Pensar no fim nos leva a pensar no percurso, não pensar nos leva a nos perder no percurso.

Quem perdemos hoje preocupava-se muito com isso, em ter uma passagem no mundo que valesse a pena, com significado para si e para os que a cercavam. Alguém que após perder o amor da sua vida tentou com todas as suas forças se adaptar a uma nova realidade, a da ausência. Lutou para ter uma vida com significado, mesmo tendo perdido o sentido da vida, quando se tem a sorte de uma relação de amor verdadeiro.

A notícia da perda súbita sempre nos pega de calças curtas, como se um vento frio solapasse nossas canelas em um dia de verão brasileiro sem nos dar o devido planejamento. Hoje fomos pegos sem blusa de frio, quase nus, e sim, uma perda dessa envergadura tende a ser tratada como um inverno que perdurará por algum tempo, no coração daqueles que a admiravam grandemente, serei uma delas.

Só não sinto mais por saber que ela será recebida de braços abertos e com um enorme sorriso por aquele que amou verdadeiramente aqui embaixo, seu sonho finalmente será realizado, o reencontro tão esperado depois de longos anos, de ressignificação da vida, das relações e especialmente da morte, o que ela bravamente conseguiu e levará consigo. Deixa esse legado belíssimo!

Agradeço à vida por ter me apresentado pessoas com tamanha grandeza e envergadura, por serem fortes ao acessar suas fragilidades, por ter a honra de cuidar e acompanhar vidas e saber que o poder de mudar nossa realidade está dentro de cada um de nós! Você me mostrou isso lindamente!

Vá em paz minha querida, sabendo que deixou sua semente em cada um dos que tiveram a honra de conviver e aprender contigo! Para os que deixam sementes a vida jamais cessa, ela apenas se transforma e você florescerá de outra forma em nossas almas! Gratidão por se dar a oportunidade que poucos se dão de “tornar-se quem deveras são”.

Daniela Bernardes

Psicoterapeuta

Especialista em Desenvolvimento Humano

2 respostas para “Lá se vai…”

  1. Que grandeza de texto, a altura da homenageada.
    Conheci Bia, num curso “Conversas sobre Morte”, em todos os encontros era muito nítido seu amor pela vida e pelo amor de sua vida.
    Agora, com certeza estão juntos novamente. ❤️💙

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